Mais uma vez ela se encontrava sentada no mesmo bando presente na via da ostentação. Estava lá apenas para apreciar o que gostaria que fosse sua epiderme.
O vestido de tecido leve não tinha nenhum diferencial perante os outros, mas por algum motivo sua beleza injustificada era hipnotizadora para seus olhos cansados.
“Se ao menos minhas escamas ornassem com toda essa sutileza.”
Por dentro estava vazia pensando apenas como seu corpo inchara conforme foi cicatrizando das marcas de chibata que a vida lhe desferiu.
Refletida pela verdade acusadora da vitrine, ela era um grande pedaço de carne sem órgãos, embalada apenas por um rótulo sem valor, sem significado, que censurava todo o horror de seu interior putrefato.
“Tão sublime, tão vivo”
Ela estava em êxtase. O vestido respondeu ao seu olhar moribundo. A saia balançou levemente (um movimento de misericórdia). Ele respondia aos seus estímulos, ao seu desejo.
Ainda imóvel, sem sorrir, sem expor absolutamente uma vida, ela tremeu por dentro. Estava radiante, parecia que a borboleta iria por fim dilacerar aquela lagarta e voar para a liberdade. Suas asas possuíam o mesmo desenho estampado no vestido, que parou de se mexer.
Aos poucos retomou sua sanidade banal e sentiu novamente suas pernas, seus braços.
Sete pessoas passaram por ela. Duas lançaram olhares curiosos, porém discretos.
Ela não viu ninguém.
Pegou sua bolsa e levou consigo aquela pequena resposta como se fosse o sentido de toda sua vida.
Acelerou os passos para não perder a novela.
Philip Glass – Opening
