Mais uma tarde de terça-feira tóxica, mais uma baforada vinda de seu cigarro velho e uma última olhada pela janela pintada com tinta azul… Já descascando.
A maderia marcada pela vida de muitas histórias e poucas emoções não a comoviam.
O céu que mesclava um cinza e azul claro tentava fazer com que os olhos daquele corpo, quase oco, desse uma resposta à aquela pergunta que sempre permeava em sua mente, mas não se lembrava das forma das letras para conseguir recitá-la…
Lembrava-se apenas do… “Por que…?”
Odiava o início… Achava que não soava bem. Aquela junção de palavras banais lhe davam sono. Como prosseguir algo se ele está com a raiz podre…
Se negava e… mais uma vez… se negava.
Havia um homem em frente a janela que a divertia. Ele apenas olhava para a esquerda e para a direita. Parecia uma pintura animada com todas aquelas rugas. Sabia como tinham sido pinceladas de tanto observar.
Ela estava a sua frente e ele não a via. Talvez sua silhueta e pele branca se confundiam com os desenhos da cortinha. Parecia uma noiva abandonada ao parque à espera de seu marido.
À espera…
A brasa do cigarro queimou o dedo. Ela acordou de seu delírio e se viu novamente em seu quarto… Tradução rústica de sua vida jovem.
Ela fecha a janela e segue tentando lembrar da pergunta…
Mais uma vez ela se encontrava sentada no mesmo bando presente na via da ostentação. Estava lá apenas para apreciar o que gostaria que fosse sua epiderme.
O vestido de tecido leve não tinha nenhum diferencial perante os outros, mas por algum motivo sua beleza injustificada era hipnotizadora para seus olhos cansados.
“Se ao menos minhas escamas ornassem com toda essa sutileza.”
Por dentro estava vazia pensando apenas como seu corpo inchara conforme foi cicatrizando das marcas de chibata que a vida lhe desferiu.
Refletida pela verdade acusadora da vitrine, ela era um grande pedaço de carne sem órgãos, embalada apenas por um rótulo sem valor, sem significado, que censurava todo o horror de seu interior putrefato.
“Tão sublime, tão vivo”
Ela estava em êxtase. O vestido respondeu ao seu olhar moribundo. A saia balançou levemente (um movimento de misericórdia). Ele respondia aos seus estímulos, ao seu desejo.
Ainda imóvel, sem sorrir, sem expor absolutamente uma vida, ela tremeu por dentro. Estava radiante, parecia que a borboleta iria por fim dilacerar aquela lagarta e voar para a liberdade. Suas asas possuíam o mesmo desenho estampado no vestido, que parou de se mexer.
Aos poucos retomou sua sanidade banal e sentiu novamente suas pernas, seus braços.
Sete pessoas passaram por ela. Duas lançaram olhares curiosos, porém discretos.
Ela não viu ninguém.
Pegou sua bolsa e levou consigo aquela pequena resposta como se fosse o sentido de toda sua vida.
O sinal que pedi para aquela entidade iluminada
(não me recordo o nome que invoquei naquela noite semi estrelada seca)
aguardei com ansiedade infantil.
não obtive resposta
Hoje (não) sofro apático pelo pedido não atendido.
Eu sento, fumo, vivo e morro. Pouco a pouco, dia após dia.
“Ela fixou seus olhos nele e disse algumas mentiras.
Voltou ao seu caminho para o tudo, carregando consigo uma mochila que continha resquícios de seu passado. Memórias que nada lhe diziam, mas gostava de tentar lembrar aquele sabor que nunca mais foi o mesmo.
Continuou a caminhar no azul frio e desbotado sentindo que a única vida próxima era a sua, e que por fim estava livre, sozinha
“We are the music makers,
And we are the dreamers of dreams,
Wandering by lone sea-breakers,
And sitting by desolate streams;
World-losers and world-forsakers,
On whom the pale moon gleams:
Yet we are the movers and shakers
Of the world for ever, it seems.
E eles voltaram a se beijar. Embalado por uma dança ilícita poucos momentos antes desta troca de toques e sabores, X (não sei seu nome) quis cada vez mais forte aquele contato que o fazia se sentir mais ou menos humano.
Após aproximadamente 15 minutos, X subiu para o pequeno calabouço úmido e frio para se entregar aos braços de seu Eros.
O que parecia uma paixão simples, se tornou cada vez mais uma festa promovida pela Grande Meretriz. A carne se tornou apenas peça de uma vistosa vitrine, onde todos que ali estavam respiravam um ar que possuía a volúpia de um desesperado desejo.
Servido o banquete, sobraram apenas os restos descartado por aqueles zumbis que decidiram voltar para suas covas. X estava com seu companheiro, que naquele momento parecia apenas um aglomerado de órgãos respondendo aos seus fracos impulsos.
Ao soltar as algemas que mantinham ambos presos um ao outro, o pobre moribundo tentou uma última troca, um último olhar, uma última tentativa de se sentir vivo. Porém X, que durante a maldita refeição perdeu o que restava de seu coração, substituindo por um pedaço de bronze, se fechou, disse “Adeus” com um sorriso no rosto e saiu feito eremita contra o vento que o esfaqueava com brutalidade.
eu lhe imploro acalme seu coração
não seja escravo de tantos sentimentos tristes
quem o deixou nesse estado?
ninguém mais
ninguém mais além de mim
eu, Umekawa
eu sou culpada de tudo
eu devo me arrepender?
ou devo de me lamentar?
eu não sei
veja meu coração
prostrado de tanta angústia
ela chorou lágrimas angustiadas
sobre pepitas de ouro
as moedas logo se trasnformaram
em lindas e radiantes flores “kenia”
todas cobertas de orvalho
banhadas em suas lágrimas
as meodas resplandeceram brilhantes
honra, glória e fortuna
são apenas grãos de areia passageiros
seus vestígios se tornam poeira
espalhados pelos caminhos para Yamato
para serem pisados para sempre