
Bom Dia,
Mais uma vez encontro-me na prisão com os “companheiros” de cela relinchando clichês e pretensões. Não posso negar que durante todo este período preso a essa bola de aço aprendi muitas coisas que gostaria, muito, de dividir com o nada.
Vejo todos os dias o rebanho de animais de mesma cara seguindo para o abate (Charles Chaplin realmente era visionário).
Hoje posso dizer de fato que amo o que faço justamente porque não sei o que é amar e muito menos qual é o sabor do ódio. E porque questionar a distorção de um sentimento se não sabemos ao menos qual é a sua forma?
Percebi que a lealdade é muito mais válida que o conhecimento, e que lealdade está associada à uma ignorância não assumida. Eis o segredo do sucesso. Do preso do mês. Do reconhecimento (justamente o que todos nós, presos/porcos, queremos tanto – somos carêntes daquilo que não sabemos que queremos).
Depois dessa luz negra esclarecedora, vi quem realmente sou, no meio dos animais seguindo em linha reta, vi quem sou, e confesso que não gostei, o gosto é amargo. Vi também que os passaros livres (que estão acima de nós que temos 4 patas pesadas) seguem no mesmo caminho, eles estão indo na mesma direção, para o mesmo abate. Só não perceberam.
Só não perceberam porque eles têm asas, que abafam o som do resto do mundo e fazem com que eles não ouçam nossa mudez, nosso silêncio, nossa lealdade.
No fim, seguimos para o mesmo buraco negro, para a mesma cadeira elétrica. E seguimos felizes. Pois essa é nossa única recomensa. Nosso objetivo máximo. O prêmio pela nossa lealdade ignorante.
Aprendi que não se deve confiar nos seres de dentro da cela, conjunto de carne, ossos e ações lineares.
Aprendi que estamos aqui não por uma satisfação, procuramos apenas o resultado líquido. A satisfação existe pelo que fazemos fora (fora da fila pro abate, fora da prisão), e não aqui dentro.
Aprendi que “motivacional” é alienação disfarçada, porque o feio soa bonito quando maquiado.
E que gostamos de mudar alguns significados para tornar o ardor mais suave.
Bom Dia,