Estava sentada naquela praça meio suja, talvez porque já eram umas 17:00 horas e uns jovens tinham se juntado a pouco pra fazer uma espécie de manifestação sem objetivo claro. Alguns papeis de bala e muitas bitucas de cigarro foram deixads no chão.
23 bitucas e 12 papeis de bala mais precisamente.
Estava lá desde as 15:00h, e logo quando cheguei observei um casal de idosos fazendo uma caminhada. Apesar da proximidade corporal o contato era praticamente nulo, não conversavam, não se olhavam, não sentiam, apenas seguiam. Deviam fazer aquela caminhada por anos no mesmo local. A apatia dos dois era tamanha que me deu sono, mas não podia dormir, estava esperando alguém.
Continuei coadjuvante de minha própria vida.
Mais tarde, três homens ficaram circulando próximos do lugar onde estava sentada, acho que era 16:30h. Eles se olhavam com um certo desejo contido, um deles tinha uma aliança, os outros dois jovens pareciam perdidos. Senti uma tensão misturada com prazer no ar e fiquei nervosa, comecei a tremer mesmo debaixo do sol. Logo mais eles foram para o banheiro masculino, um a um. Continuei tremendo até eles saírem, depois de uns 25 minutos. Relaxei, respirei tranquila e parei de tremer.
Assim como eles, eu precisava de uma pequena dose de prazer efêmero. Estava lá justamente para isso. E foi por este motivo que não tive fôlego para julgar o homem de aliança que passou na minha frente falando com a mulher pelo celular.
“Amor, terminei aqui, já estou voltando pra casa…”
“Puta. Eu sou uma desgraçada. O que eu estou fazendo aqui? Maldita, fraca não resisti novamente, porque você faz isso com você mesma!? Sua porca imunda!” Este pensamento me veio às 17:15h, depois às 17:30h, mas começou precisamente às 17:03h.
E foi no meu décimo cigarro (estou diminuindo) às 17:45h, que ele passou. Estava com o fone de ouvido em apenas uma das orelhas, a outra estava livre para ouvir sua amiga, bem bonita e jovem.
O sorriso, a barba mal feita, tudo nele era lindo. Me alimentava daquela imagem enquanto morria por dentro. Tinha fome, tinha raiva, desejava e queria matar alguém. Estava louca, maníaca, sabia tudo dele e ele nada de mim. Eu o adorava, queria poder tocá-lo, matá-lo, queria poder comer sua carne, queria ser enforcada pelos seus braços. Estava viva e em transe, precisava vê-lo mais e mais, e quanto mais eu via mais eu sofria satisfeita.
Às 18:00 ele tinha passado por completo. Acendi mais um cigarro e coloquei uma bala na boca. Por coincidência uma conhecida que estava andando e veio até mim…
“Nossa! O que você está fazendo você por aqui”
“Estou indo embora”
Me levantei e comecei a andar. Pensei comigo mesma “não vai dar tempo de arrumar o armário, vou ter que deixar pra semana que vem”.

Andrew Wyeth – Christina’s World